quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Mensagem do Evangelho - J. I. Packer (3/4)


3. O evangelho é uma mensagem a respeito de Cristo — Cristo, o Filho de Deus; Cristo, o Cordeiro de Deus, morto em favor do pecado; Cristo, o Senhor ressuscitado; Cristo, o Salvador perfeito.

Dois fatos precisam ser esclarecidos a respeito de declararmos essa parte da mensagem. 1) Não devemos apresentar a pessoa de Cristo à parte de sua obra salvífica. Às vezes, alguns dizem que é a apresentação da pessoa de Cristo, e não das doutrinas a respeito dEle, que atrai os pecadores a Ele. Sim, é verdade: é o Cristo vivo que salva, e uma teoria de expiação, embora ortodoxa, não é um substituto para Ele. Contudo, quando fazemos essa observação, o que está sendo sugerido é que a instrução doutrinal é dispensável na pregação evangelística, e tudo que o evangelista precisa fazer é apresentar um quadro vívido do homem da Galiléia, que saía por toda parte fazendo o bem, e garantir aos ouvintes que esse Jesus ainda está vivo para ajudá-los em seus problemas.

No entanto, essa mensagem dificilmente poderia ser chamada de evangelho. Na realidade, seria apenas um enigma, que serviria para mistificar. A verdade é que você não pode sentir a figura histórica de Jesus, se não sabe a respeito da encarnação — ou seja, o fato de que esse Jesus era realmente o Filho de Deus e que se tornou homem para salvar pecadores, de acordo com o propósito eterno de seu Pai. Você também não pode entender a razão da vida de Jesus, se não sabe a respeito da expiação — ou seja, o fato de que Ele viveu como homem para morrer como homem, em favor dos homens; e de que sua paixão e seu assassinato judicial foram realmente sua ação salvífica para remover os pecados dos homens. Você também não pode dizer em que termos se achegou a Cristo, se não sabe a respeito da ressurreição, ascensão e posição celestial — ou seja, o fato de que Jesus foi ressuscitado, entronizado e tornado Rei e de que vive para salvar até ao fim todos os que reconhecem seu senhorio. Essas doutrinas, sem mencionar outras, são essenciais ao evangelho. De fato, sem elas, não teríamos nenhum evangelho para pregar.

2) Há um segundo fato, complementar: não devemos apresentar a obra salvífica de Cristo à parte de sua Pessoa. Pregadores evangelísticos e obreiros pessoais têm, às vezes, cometido esse erro. Em seu interesse de focalizar a atenção na morte expiatória de Cristo, como único fundamento pelo qual os pecadores podem ser aceitos diante de Deus, eles têm exposto nestes termos os convites para que pessoas venham à fé salvadora: “Creia que Cristo morreu por seus pecados”. O efeito dessa exposição é apresentar a obra salvífica de Cristo, realizada no passado, divorciada de sua Pessoa no presente, como o único objeto de nossa confiança. Contudo, isolar a obra dAquele que a realizou não é respaldado pela Bíblia. Em nenhum lugar do Novo Testamento, a chamada à fé é expressa nesses termos. O que o Novo Testamento exige é fé em (em), ou para (eis), ou sobre (epi) o próprio Cristo — o colocarmos nossa confiança no Salvador vivo, que morreu pelos pecados. O objeto da fé salvadora não é, falando estritamente, a expiação, e sim o Senhor Jesus Cristo, que se tornou a expiação. Ao apresentarmos o evangelho, não devemos isolar a cruz e seus benefícios do Cristo a quem a cruz pertencia. As pessoas às quais pertencem os benefícios da morte de Cristo são justas porque confiam em sua Pessoa e crêem não simplesmente em sua morte, mas também nEle, o Salvador vivo. “ Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31), disse o apóstolo Paulo. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28).

Sendo assim, uma coisa se torna logo evidente: a questão concernente à extensão da expiação, muito debatida em alguns círculos, não exerce qualquer implicação sobre o conteúdo da mensagem evangelística neste ponto específico. Não me proponho a discutir isso agora; já o fiz em outra obra. Não estou perguntado se você acha verdadeira a afirmação de que Cristo morreu para salvar cada ser humano do passado, do presente e do futuro. Também não estou convidando-o a tomar uma posição a respeito desse assunto, se ainda não o fez. Tudo que pretendo dizer é que, embora você pense que tal afirmação é verdadeira, sua apresentação de Cristo, enquanto evangeliza, não deve ser diferente da apresentação daquele que pensa de modo contrário.

O que estou dizendo é o seguinte: é óbvio que, se um pregador acha que a afirmação “Cristo morreu por todos vocês”, proferida a uma congregação, é improvável e talvez não seja verdadeira, ele cuidará para não fazê-la enquanto prega o evangelho. Por exemplo, você não acha tais afirmações nos sermões de George Whitefield ou Charles Spurgeon. Ora, o meu argumento é que, se um pregador acha que tal afirmação é verdadeira, ele não precisa dizê-la e não tem razão para fazer isso, quando prega o evangelho. Pregar o evangelho, como temos visto, significa chamar os pecadores a virem a Jesus Cristo, o Salvador vivo, que, por meio de sua morte expiatória, é capaz de perdoar e salvar todos os que põem a sua confiança nEle. O que tem de ser dito a respeito da cruz, quando pregamos o evangelho, é apenas que a morte de Cristo é o fundamento sobre o qual o homem pode receber o perdão de Cristo. Isso é tudo que precisa ser dito. A questão da extensão específica da expiação não entra em foco na mensagem evangelística, de maneira alguma. O fato é que o Novo Testamento nunca exorta nenhum homem a se arrepender com base no ensino de que Cristo morreu específica e particularmente por ele.

O evangelho não é: “Creia que Cristo morreu pelos pecados de todos e, conseqüentemente, por seus pecados”, como também não é: “Creia que Cristo morreu pelos pecados de certas pessoas e, portanto, talvez não pelos seus pecados”. Não temos qualquer base para exortar as pessoas a colocarem sua fé em qualquer desses pontos de vista sobre a expiação. Nossa tarefa consiste em mostrar-lhes o Cristo vivo e chamá-las a crer nEle. Isso nos leva ao ingrediente final na mensagem do evangelho.

Extraído do livro Evangelização e a Soberaria de Deus. Copyright © 1961. Inter-Varsity Fellowship, England.
Fonte: Editora Fiel



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