sexta-feira, 18 de março de 2011

O Inferno e a Cruz - Ligon Duncan


Existe uma necessidade urgente de que abordemos a verdade do inferno cristologicamente, isto é, em uma relação consciente com a doutrina de Cristo. Quero dizer isso de pelo menos duas maneiras. Primeiro, precisamos enfatizar que o inferno é uma doutrina inescapavelmente relacionada a Cristo. Aprendemos sobre ela pelos lábios de Jesus. Ninguém é mais responsável por lançar as linhas centrais dessa doutrina tão desprezada em nossos dias que o nosso Senhor. Ele abordou o assunto mais que qualquer outro, e deu mais a atenção a ela em seu ministério que a muitos outros temas importantes. E não é surpresa que ele falasse disso tão frequentemente, com solenidade mortal. Ele o criou e somente ele da humanidade redimida experimentou os tormentos do inferno. Portanto, em última análise, cremos no inferno porque cremos – e acreditamos – em Jesus. Isso significa que se alguém quiser divergir do inferno, sua discussão não está contra o pregador, mas contra o Criador-Salvador. Essa não é uma luta que alguém deseja entrar.

Segundo, nossa pregação sobre o inferno deve ser cristológica no sentido de que deve ser feita dentro do contexto da cruz. Para muitos, o inferno surge como um problema de teodiceia. Logo que alguém sugere que o problema do mal coloca em questão sobre a bondade ou existência do Deus soberano, em seguida o inferno é lançado como o último trunfo contra o amor, a misericórdia e a graça do Deus cristão. Como podemos crer, perguntam, em um Deus que envia pessoas para o inferno? Bem, a resposta é: olhe para a cruz e eu te dou um problema maior para pensar. O desamparo, o abandono e a renúncia de Cristo na cruz é um problema filosófico-teológico muito maior que o inferno.

Por que eu digo isso? Porque na cruz, a ira de Deus está sendo derramada em um lugar, na única pessoa, em todo o universo que tinha o direito de não recebê-la – o encarnado e impecavelmente perfeito Filho de Deus. É uma injustiça muito maior que poderíamos conceber. Nada jamais foi tão desmerecido. O inferno, por outro lado, foi merecido. Faz perfeito sentido. Sua lógica é inexorável. Aqueles que abandonaram Deus nessa vida, o abandonarão na próxima. Justiça absoluta, mesmo que em certo sentido autoimposta e escolhida inadvertidamente. O inferno é o quid pro quo definitivo – a recompensa eterna de todos os pelagianos¹.

Mas na cruz é que há um labirinto. Quando contemplamos adequadamente a cruz, temos de levar em conta, não apenas sua brutalidade, mas também sua injustiça, à luz da perfeição moral completa do Filho e sua suprema preciosidade para o Pai. Não existia base intrínseca para um juízo contra ele. Considerada nesse contexto, a cruz parece contradizer e questionar a própria justiça de Deus. Ainda assim, a mensagem central do Evangelho de Paulo é que esse plano, que parece, à primeira vista, baratear a justiça de Deus, era verdadeiramente a estratégia divina para estabelecer a justiça de Deus na dispensação de sua graça. Como isso pode acontecer?

Porque embora não exista base intrínseca para a condenação de Cristo, ainda assim havia uma base extrínseca localizada em sua união federal com seu povo. Por causa de sua relação pactual, em sua substituição vicária, ele tornou-se fraco e vulnerável ao pecado e punição de todas as suas ovelhas. Portanto, a cruz é inocentada de injustiça e, de fato, é o instrumento divino para revelar “a justiça de Deus” (Romanos 1.17).

Os enigmas do inferno, tão profundos quanto sejam, não podem competir com o enigma da graça. O inferno é o temor subconsciente da humanidade porque inerentemente sabemos que o merecemos, mesmo que ranjamos os dentes sobre isso (como os habitantes do gehenna). Mas a graça, a graça é contraintuitiva. É a coisa mais difícil de se crer no mundo.

Agora estamos perfeitamente familiarizados com o conselho de Spurgeon de que pegamos mais moscas com mel que com vinagre. Mas isso não deveria ser usado como uma justificação para ignorar a verdade do inferno em nossa pregação. Spurgeon certamente não o faria. Não, o inferno é uma realidade que coloca o céu-pela-graça em claro relevo. Ela diz ao pecador, via revelação especial, que ele sabe, via revelação geral e pela imago Dei: um dia sua alma será exigida, haverá uma prestação de contas, a justiça de Deus será consumada e ele merecerá a condenação. Então, ao lado dessa verdade do inferno, o Evangelho vem e diz: sim, a justiça de Deus será feita – mas de uma maneira ou outra. Pode-se levantar diante do tribunal com a sua própria bondade ou vestido da bondade de Cristo. Pode-se receber o salário que merece ou receber o salário que Cristo mereceu. A diferença é final e eterna.

¹quid pro quo – adaptado no Brasil como “quiprocó”, ou confusão – tem o sentido de “toma lá, dá cá” no latim e nos países de língua inglesa.

Traduzido por Josaías Jr

Fonte: iPródigo


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